Tuesday, October 13, 2009

Lulina

A Lulina lançou o disco Cristalina.
Fiz um microdocumentário sobre ela, dá uma olhada:


Thursday, October 01, 2009

Neon-realismo



Tentando escrever com imagens.

Sunday, September 21, 2008

Cabeça na porta


A única solução era fingir que nada tinha acontecido. Seguir andando, enfileirando justificativas na cabeça para seus atos, quem sabe talvez se pensasse muito, como se recitasse mentalmente uma oração, como quem deseja muito uma coisa e espera que essa coisa aconteça de tanto ser pensada, ele até acabasse esquecendo e acreditando que aquilo não fora nada. E que até era uma atitude necessária.

Um dia eu já não era mais adolescente, mas foi aí que me veio uma rebeldia tardia. Ela estava em mim há tempos, agora eu sei, incubando e cozinhando lá dentro, só esperando a hora para sair. Não sou o homem que você pensava, agora até chego a me orgulhar em te dizer, e você me diz espantada, ah, mas essa não é a pessoa que eu conheço faz anos, minha amiga me diz, você é doce, e eu digo que não importa quem eu seja, eu sempre serei a imagem que você tem de mim.

Não importa o que eu faça, eu não vou me construir. Para você eu sou só uma imagem, um molde ambulante, uma folha em branco para você depositar suas crenças e seus desejos. E eu não consigo mais sair desse vício, dessa brincadeira de jogar, porque eu digo coisas para impressionar, compro roupas desconfortáveis, mas que me caem tão bem, você diz, e preenchem e satisfazem a sua necessidade de apreciar a estética.

E você quer o belo, e você é romântica, e você não quer as coisas pequenas do dia-a-dia, porque o dia-a-dia é opressivo, e o dia-a-dia vai te matando aos poucos, vai diminuindo a distância entre você e o fim, e o dia-a-dia é assim, pouco a pouco, como a palavra es-cri-ta, vai-te-ma-tan-do-e-te-su-fo-can-do.

Quando vi que não importava mais tentar me construir, o meu outro saiu de dentro de mim. Hoje há um clone de mim nas ruas, e ele se apresenta com meu nome, mas sei que não é mau agouro. Conversamos às vezes, saímos para tomar café. No começo, evitávamos lugares públicos. Hoje, quando encontro conhecidos, apenas o apresento como um irmão gêmeo. Como assim, nós vivemos tanto tempo juntos, e você nunca mencionou que tinha um irmão? É que eu tinha esquecido, ele ficou tanto tempo morando fora, tento explicar.

O que sei é que as pessoas andam me estranhando. Trato mal quem tenta se apoiar em mim, não tenho tempo para incertezas, não venha jogar a sua insegurança em mim. Sei que você precisa da minha mão estendida, mas ela vive agora dentro do meu bolso. Não pense que me orgulho. As coisas apenas são.

Monday, September 01, 2008

Quando acaba



Eu vou descobrir um dia.

No último dia do mês, tirou o calendário da parede e colocou sobre a mesa 30 momentos de memórias passadas. Lembretes, contas mal pagas, encontros sem fim, em letras tremidas e resumidas, carregando o saudável desconhecimento do que estava por vir.

Mas agora ele sabe. A prova de pequenos fracassos e felicidades que quase não cabem em pequenos quadradinhos ao redor de números é a sua leitura necessária às vésperas do começo de um novo mês.

Pois ele gosta de acreditar que a vida existe em ciclos e que, na renovação, uma nova chance surge, mais 30 e poucos quadradinhos brancos, prontos para serem preenchidos, tentando não tremer na hora de definir o imprevisto. Na ânsia por um recomeço, já dava por terminado o dia que apenas começava e virou a folha e pendurou um novo mês na parede.

Não sei como começar.

Ele tinha pressa.

E tinha medo. Porque ele se lembra demais, e novas informações não são permitidas, elas sempre ficam fora da sala. Ele está ocupado demais com tudo que já sabe, era daquelas crianças que só gostavam de ver filmes repetidos, e ficava aguardando com ansiedade por aquela parte que já sabia o que iria acontecer, como se fosse um pequeno Deus, a tirar as palavras da boca do gato e do rato, a saber o tombo, a saber sobre o futuro, um pequeno poder que seja, uma pequena ilusão, por favor, nem que seja por alguns instantes. Preciso iludir a mim mesmo novamente.

E o que farei quando a reencontrar?, já que, a essa altura, ela não deve ser mais ela, muitas coisas aconteceram, 30 e poucos quadradinhos dão um bocado de trabalho, e quando eu a vir, vou enxergar aquela adorável silhueta, e vou tentar me reconectar, e tentarei reconectá-la naquele molde confortável que já conheço, mas que já é tão verão passado, tão 10 de setembro, torres inalcançáveis -éramos felizes antes do desastre e não sabíamos-, mas essa será minha referência, e minha senha
para a minha frustração.

E tentarei sorrir velhos sorrisos, e fazer com que a piada contada pela segunda vez tenha graça e uma surpresa arranjada, mas não somos mais crianças para esperar o rato morder o gato novamente, e sem torcida, eu serei apenas um tolo a carregar tantas memórias vencidas. Hoje ela é apenas a imagem que eu tenho dela, e isso me assusta um tanto.

Quero descobrir um dia.

Sunday, October 14, 2007

Cama





Acordou bem tarde no domingo. A culpa, o medo de morrer e aquela vontade de ser tão responsável já não faziam mais sentido para ela. Mas a cabeça ainda doía. E o sorriso não vinha, e nem a vontade de levantar da cama, e nem a vontade de se recompor e voltar a ser gente. Porque naquele estágio ela não se sentia gente. Só se sentiria gente novamente quando se levantasse enfim, fosse ao banheiro, aliviasse a bexiga que já doía, lavasse o rosto e passasse uma água no cabelo. Ela dormiu de maquiagem. Em outros tempos, ela se acharia no fundo do poço. Tinha vontade mesmo era de beber água. Vontade de se purificar? A culpa cristã escondidinha, lá no fundo, e ela tentava jogar água fria em cima dessa danada. Agora já era tarde, a cama já estava contaminada com tanto cheiro de cigarro e de noite e de pessoas que ela conheceu na noite passada. E aquela cama, que em outros tempos era tão cheirosa, e que tinha apenas dois cheiros, agora era um depósito de cabelos e pêlos dos mais diferentes tipos, das mais variadas cores, dos mais variados sexos, e das mais diferentes espessuras. A bexiga estava apertada, a vontade de água era grande, mas tudo que ela conseguia fazer era procurar os mínimos vestígios daquele que ela tanto amou um dia, que foi embora e deixou apenas pequeninas lembranças hoje perdidas naquela enorme e democrática cama que nunca dizia não.

No meio da gente



Quando nós nos encontramos, a minha vida não tinha fim. Eu estava no meio do nada. No começo de nossa história, eu não sabia o que era começo ou fim. Você apenas me pegou pela mão, fechei os olhos e acreditei em você. Quando eu vi, eu já estava no meio de você. E, nestes dias secos, em que nós nos engolimos, e temos cada dia mais sede, eu sei que nosso fim é nosso meio. Enquanto houver um sempre, quero você ao meu lado.

(O vídeo é da Pipilotti Rist e se chama Mutaflor. Sou apaixonado por esse vídeo)

Tuesday, September 25, 2007

Amor adora arte (e uma dancinha)


Ele e ela estão no museu.

Ele: É um lindo Jackson Pollock, não?

Ela: Sim, é.

Ele: O que esse quadro representa pra você?
Ela: Ele reafirma a negatividade do universo. O horroroso e solitário vazio da existência. O Nada. A difícil situação do Homem forçado a viver em uma eternidade estéril, sem Deus, como uma pequena chama tremulando num imenso vazio com nada além de dejetos, horror e degradação, formando uma inútil e fria camisa-de-força em um cosmos sombrio e absurdo.

Ele: O que você vai fazer no sábado à noite?

Ela: Cometer suicídio.

Ele: E na sexta?


Eu simplesmente adoro esse diálogo. Sempre que vejo, fico rindo que nem um idiota, como uma foca batendo palmas querendo receber mais sardinhas (tá, eu confesso que nunca vi uma foca batendo palmas, mas acho que você entende o que quero dizer, não?).

Essa é uma cena de “Sonhos de um Sedutor”, que no original se chama “Play It Again, Sam”, referência a “Casablanca”, claro. Não é dirigido pelo Woody Allen, mas é praticamente um filme dele. No filme, ele está desesperado atrás de mulheres, sofredor incorrigível (que pleonasmo!) e ninguém menos que Humphrey Bogart é seu consultor amoroso.

E lá vai nosso sofrido Woody Allen, encorajado por um casal de amigos, a paquerar em um museu. Ele vê a moça meio dark, existencialista fatal, e cola nela. E daí se segue esse diálogo inesquecível.

Eu adoro museus. De arte moderna, de preferência. Amo aquelas obras que os Manés falam: “Dãããããã, isso eu também sei fazer”. Amo coisas conceituais, que “qualquer um pode fazer, até meu filho de 5 anos”. Acho que é porque gosto de pessoas conceituais também....Deve ser um lugar ótimo de se paquerar. Moças interessantíssimas vão sozinhas. Moços lindos estão por ali. E sempre dá aquela sensação idiota de que todos, já que estão ali, são inteligentes. Mas que besteira! Pessoas inteligentes cansam às vezes, não? Sempre tem algum estudante ensebado, mas sempre também aquelas pessoas especiais, que batemos o olho e na hora sabemos que tem algo especial. Linda adora arte, já cantava Scandurra (você já ouviu “Amor em B.D.”, do disco “Amigos Invisíveis”? Ouça agora. Linda adora arte)

O fato é que a gente procura pessoas especiais, quando as pessoas especiais não estão por perto. Quer dizer, às vezes, elas estão do nosso lado, mas não conseguimos ver. Claro, tudo é perdoável, somos cegos por opção. Mas já que não conseguimos ver, vamos procurar em outros lugares, procuramos pessoas especiais em lugares especiais.

Não me esqueço de quando eu tinha uns 18 anos e tava voltando do ensaio da minha banda, quando eu tentava ter banda. O vocalista quis parar num Habib’s (tãããão 18 anos isso), comprar umas esfihas, era baratinho (tãããão 18 anos, nunca temos dinheiro pra nada) e, na fila, ele encontrou a menina dos sonhos dele. Ao menos fisicamente, claro. Mas é assim aos 18, não? Daí que ele foi lá, falar com a menina, jogou qualquer papo bobo. E ela só se limitou a torcer o nariz e dizer: “Ai, você tá me paquerando aqui na fila do Habib’s?”.

Na hora achei a menina de uma nojentice só. Chata, arrogante, metida. Até hoje continuo (hahaha) achando, mas tudo bem, agora eu entendo ela. Fila do Habib’s não é um lugar especial pra achar alguém especial, né? Mas que ela foi uma chata, ela foi. Imagina que lindo se eles tivessem ficado, e eles pudessem contar, aos risos, pros netinhos: “Sabe onde o vovô e a vovô se conheceram? Num lugar super tosco, onde serviam esfihas ensebadas!”.

E sempre lembro também de uma mulher que trabalha com minha mãe que ficou casada há uns 20 anos com um cara que ela conheceu no.....Metrô. Ela tava sentada naqueles bancos da plataforma, esperando o trem chegar, e o carinha achou ela bonita, sentou do lado e colou nela. Colou tanto que se casaram.

Eu acho que não tem lugar pra nada. Pode ser em qualquer lugar. O problema é a hora. Pode ser o melhor lugar do mundo, mas se não for a hora, pra ele ou pra ela, não vai rolar. Saco! Lugar a gente muda. Hora não dá pra voltar, ir pra frente, pra trás.... Sorte que sou capricorniano, tenho a maior paciência do mundo.

Por que ter paciência faz bem. Claro, não dá pra se acomodar. Numa coisa eu acredito. Gente desesperada só atrai gente desesperada. E gente desesperada fica legal só no “Lost”. Desesperada por um namorado, namorada, trepada, dormir de conchinha, ligar no dia seguinte, fugir no dia seguinte, andar de mãos dadas, dizer que tá com saudade, dar presente, levar pra jantar, séxu, séxu e mais séxu, e beijinhos na boca, desesperados por dar vazão à tanto amor, que nem rosto tem. Pros desesperados, qualquer rosto serve. Tô fora.

O fato é que as coisas fogem do tempo. Quando você está solteiro, sozinho, e não tá deprê, nem nada, quando tudo está Ok com vc, auto-estima lá nas alturas, curtindo uma solidão opcional (que é quebrada a qualquer instante, é só ligar para um amigo aqui, uma amiga ali, e abrir aquela garrafa de vinho lá em casa, ou sair pra dançar e dar risadas numa noite qualquer, e falar bobagens até de madrugada, e ficar de queixo doendo, e sem fôlego de tanto rir), você começa a se tornar brilhante. Sim, você brilha demais. Você fica bonita (bonito demais). Fica interessante demais. Todos olham pra você. E, desesperados ou não, ninguém vai te deixar em paz. Você é bom demais pra estar sozinho. E daí, quando você vê, você perdeu sua querida solidão. E ganha uma querida pessoa ao seu lado. E, oh, não, tudo começa de novo! Eba!

Sunday, September 16, 2007

I am a freak



A Nina tava me falando que só aparece maluco na vida dela. Mas que ela gostava de malucos, porque, no fundo, nós também somos malucos. Discordei. Eu disse que não era maluco. É sim, ela disse. Você é maluco também. A diferença é que somos malucos do bem. Tá. I am a freak. Quero beber menos para, nos momentos importantes, não estragar tudo. Outra diferença é que, para o maluco do bem, um tempo depois, tudo é motivo de risadas.